quarta-feira, 30 de abril de 2008

A música não tem tempo nem época

Dori Caymmi e Joyce apresentam Rio-Bahia com grande estilo

São muitos os que pensam que o filho do grande Dorival Caymmi é baiano. Mas o fato é que um dos mais importantes compositores e arranjadores da Música Brasileira é carioca, porém criado na Bahia desde cedo.

Já a cantora Joyce é nascida e criada em Copacabana. Quando ingressou na música seu primeiro arranjador foi nada mais nada menos que Dori Caymmi.

Quarenta anos se passaram e os dois resolveram lançar, no Rio de Janeiro, o CD Rio-Bahia, com novas e velhas composições da dupla, como Saudade do Rio (Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro) e Saudade da Bahia (clássico de Dorival Caymmi), e novas parcerias, como a de Joyce e Carlos Lyra, em Era Copacabana, e Dori e Chico Buarque, em Fora de Hora.

Produzido em 2005 para as gravadoras Far Out, de Londres, e JVC, de Tóquio, o CD foi gravado nos estúdios Mosh, em São Paulo. Mas só agora a dupla apresenta este belo trabalho, repleto de Samba e Bossa, que ainda conta com a participação do consagrado jazzista americano Kenny Werner, no piano, além do baixo de Rodolfo Stroeter, da bateria de Tutty Moreno, dos sopros de Proveta e Teco Cardoso, que juntamente com o percussionista Ronaldo Silva, forma a base instrumental do álbum.

Com um jeitão simples e sorridente, Dori Caymmi elogia muito o CD e sua parceira.

“Quando eu era menino o meu apelido era baiano e por isso a Joyce resolveu colocar Rio-Bahia”, explica.

O cantor confessa que é bom trabalhar com a Joyce. Para o irmão de Nana e Danilo Caymmi, a cantora seria uma quarta irmã.

“Somos irmãos de músicas, de pais da música, temos as mesmas influências, a gente veio das mesmas rodas e isso é muito importante”, completa.

Um pouco mais tímida, Joyce também se rasga de elogios a Dori.

“É uma delícia trabalhar com o Dori. Ele é meu ídolo. Ele foi o meu primeiro arranjador e o primeiro a gente nunca esquece (risos)”.

Dori e Joyce vieram de uma época farta de bons músicos, como Roberto Menescal, Edu Lobo, Ronaldo Bôscoli e tantos outros. Mas os tempos são outros e, mesmo assim, continuam fazendo o que sabem de melhor: boas músicas.

Sobre o cenário musical de hoje, Dori não hesita em dizer que a velocidade e o mau gosto andam juntos.

“Hoje o mau gosto chega muito mais rápido do que naquela época. Antigamente as pessoas eram mais fáceis de lidar, elas não tinham tanta pressa. E era lindo morar no Rio de Janeiro. Hoje acabou-se um pouco o romantismo. Eu gosto é dessa arte do encontro com pessoas que a gente se entende, como a Joyce. Aí é muito bom”.

Já Joyce acredita que a época é a mesma.

“Estão todos aí. A música está muito viva, mesmo das pessoas que já foram, como o Tom. A música não tem tempo nem época. Quando ela é boa, seja qual for o gênero, ela é eterna”, filosofa.

Mas Dori acrescenta que o trabalho de toda essa safra não foi em vão. Ele comemora o fato de ainda existirem jovens interessados em ouvir MPB, ouvir Bossa.

Já Joyce lembra que a década de 60, no auge da Bossa Nova, grandes compositores passaram por dificuldades.

“Somos como a maré. Em um momento estamos lá em cima e, de repente, a maré baixa. Eu acho que temos que ver esta coisa com muita filosofia e trabalhar pela beleza da música para que ela sobreviva por muitos anos”.

Para a cantora o problema do Brasil é estrutural. Não há nenhuma educação musical e isso faz com que as pessoas percam a sensibilidade, a compreensão por uma música mais elaborada. Mas ainda há uma esperança.

“Eu acho que tem toda uma geração de filhos de pessoas da nossa época que estão fazendo um trabalho bonito e podem levar adiante nossa música porque tiveram exposição a ela durante toda a vida, como nós fomos”.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O popular e o erudito na mais fina harmonia

Wagner Tiso, Beth carvalho, Carlos Prazeres e Diogo Nogueira
Noel Rosa ganha roupagem clássica e surpreende seus fãs em noite emocionante

Alguém já disse que “a música é a única coisa que atravessa todos os grupos étnicos e todas as línguas”. A Orquestra Petrobrás Sinfônica traduziu muito bem a frase do trompetista Lee Morgan na noite de ontem, no Canecão – RJ, ao homenagear Noel Rosa, junto com Diogo Nogueira e Beth Carvalho.

No primeiro momento o público pode estranhar o fato de a música popular ser orquestrada, ainda mais em um país não muito acostumado com o erudito. Mas, se estudarmos com carinho o nosso passado, lembraremos que um dos maiores maestros da história da música, Villa-Lobos, fez isso melhor que ninguém.

Noel Rosa, se vivo, faria 98 anos no mês de maio. Responsável pela união do samba do morro com o do asfalto, o poeta da Vila nos deixou cedo, em 1937, com apenas 26 anos de idade, vítima de tuberculose.

Para lembrar seu centenário, os maestros Wagner Tiso e Carlos Prazeres fizeram uma seleção de seus mais conhecidos sambas, como “Gago Apaixonado” e “Último Desejo”, e convidou Beth Carvalho e Diogo Nogueira para interpretá-los, em grande estilo, com a Orquestra Petrobrás Sinfônica, dentro do Projeto MPB&Jazz.

Em sua quinta edição, o MPB&Jazz começou dentro da Orquestra como uma programação extra de música popular. A empresária e produtora Giselle Goldoni Tiso convidou Túlio Feliciano para a direção e roteiro e o maestro Wagner Tiso para a regência.

Antes do show, que aconteceu no dia de São Jorge, o devoto do Santo, trajado com camisa vermelha com a estampa do dragão e all-star azul, Tiso falou, com muito orgulho, do projeto que mistura, há cinco anos, música popular e erudita.

“O maestro Carlos Prezeres está comigo desde o início e a gente fazia um movimento de música popular com a Orquestra Sinfônica dentro de um grupo de convidados, tanto solistas como intérpretes. Mas há dois anos estamos fazendo a série em conceitos”.

Entre os homenageados do projeto estão Pixinguinha e João Bosco. E Tiso falou sobre como é feita esta seleção.

“Ano passado a gente fez Cem Anos de Frevo. Depois fizemos uma homenagem à obra de Edu Lobo e este ano pegamos dois compositores cariocas, que são o Noel Rosa, que faria 98 anos agora, e, no segundo semestre, Jacob do Bandolim, que faria 90 anos. Então o conceito é este: homenagear uma figura ou um estilo”.

Perguntado sobre a importância de Noel Rosa para a MPB, Tiso lamenta sua morte prematura, mas se orgulha de sua obra.

“Eu conheço o Noel desde menino. Ele sempre foi um grande compositor de sucesso, morreu muito jovem, aos 26 anos, e deixou uma obra imensa, de grande valor, tanto de qualidade musical como de poesia. Ele foi o primeiro dos grandes compositores brasileiros a reunir poesia com canção popular. Chico Buarque, por exemplo, é descendente de Noel Rosa’.

Atento à entrevista, o maestro Carlos Prazeres também deu sua opinião sobre o Projeto.

“Analisando pelo lado sinfônico, pelo lado erudito, nós, que trabalhamos com isso, quando lidamos com um Projeto como esse é uma coisa completamente nova. Você dá à música popular uma roupagem clássica e temos que provar que não existe música clássica nem popular, existe é música boa e música ruim. Então a gente faz música boa, independente de ser música clássica ou popular”.

Orgulhoso de trabalhar com a Orquestra Petrobrás Sinfônica, Carlos acredita ser um projeto inovador, pois faz da música popular uma série oficial dentro da sua proposta de séries, que inclui a parte erudita em sua maioria.

“A gente pode dizer que, neste sentido, é uma orquestra pioneira. Eu fico muito feliz por esse trabalho ser feito pelo Wagner Tiso, que é esse mestre tanto do clássico como do popular e a gente pode confiar sempre nele”, completa.

Prestes a subir no palco, Wagner termina a entrevista explicando essa relação entre o erudito e o popular.

“O povo vem para ouvir as músicas que ele conhece, populares, e se surpreende com o som sinfônico. E quem gosta de orquestra vem aqui e se surpreende com a música popular dentro do som sinfônico. E trabalhar nessa fronteira é de maior importância. Villa-Lobos fez isso, não há nenhuma novidade, grandes compositores já fizeram e a gente consegue fazer também”.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Crítica: Pecados Inocentes

Promiscuidade e incesto são temas abordados no chocante filme que conta a história real do assassinato de Barbara Daly Baekeland, cometido por seu próprio filho, Tony (Eddie Redmayne), ocorrido em Londres em 11 de novembro de 1972.

Baseado no livro Savage Grace, Pecados Inocentes é estrelado por Julianne Moore, no papel de Barbara, uma bela e charmosa atriz que se casa com o rico empresário Brooks Baekeland (Stephen Dillane) e faz de tudo para se adaptar ao seu meio social.

O casal tem um filho, Antony, desde cedo idolatrado pela mãe. É ele, aliás, que narra a história. Quando adolescente, suas relações homossexuais revoltam seu pai, que o despreza e abandona a família. Mãe e filho vivem então um para o outro, numa cumplicidade que chega a ser doentia.

Barbara é uma mulher completamente instável, o que se vê desde o início e que piora com o tempo. Tony é um homem confuso, que não sabe bem o que é. Ele sofre com o desprezo do pai e os descontroles da mãe. Sempre de mudança, a única coisa na qual se apega é a coleira do cachorro que teve quando criança. E é esse pequeno fator que vai iniciar a discussão que o leva a matar Barbara.

O assunto é tão delicado que o filme demorou pelo menos oito anos para ficar pronto.
Mas o que ajudou muito foi o fato de o diretor Tom Kalin abordar a tragédia de Barbara num tom suave, sem transformá-la em um monstro.

Pelo contrário. O que o público observa é uma linda mulher, que de repente conseguiu um status por se casar com um homem bem sucedido, mas descobre que nada disso a livra da depressão e da promiscuidade. O mais intrigante é que Barbara não enxerga maldade em seus atos, principalmente com o filho. Para ela é apenas proteção.

Mas Kalin está acostumado com esse tipo de tema. O diretor gosta de abordar assuntos como homossexualidade e Aids. Seu trabalho tem sido aclamado pela crítica e recebido vários prêmios e indicações, incluindo honrarias do Festival Internacional de Cinema de Berlim, Festival de Cinema de Sundance e outros festivais de cinema de diversidade sexual. Kalin ganhou o Gotham Awards Open Palm Award (por Swoon - Colapso do Desejo) e foi indicado para dois Independent Spirit Awards.

Pecados Inocentes é seu último trabalho, após 15 anos sem filmar um longa-metragem. O filme está para estrear em 25 de abril.

Ficha técnica

Título original: Savage Grace
EUA, 2006, 97 minutos
Gênero: Drama
Direção: Tom Kalin
Roteiro: Howard A. Rodman, adaptado do livro homônimo de Natalie Robins e Steven M.L. Aronson
Fotografia: Juan Miguel Azpiroz
Edição: John F. Lyons
Distribuição nacional: California Filmes

Elenco

Julianne Moore - Barbara Daly Baekeland
Stephen Dillane - Brooks Baekeland
Eddie Redmayne - Tony Baekeland
Barney Clark - Tony criança
Elena Anaya - Blanca
Belén Rueda - Pilar Durán
Abel Folk - Carlos Durán
Hugh Dancy - Sam Green
Unax Ugalde - Black Jake

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Crítica: O Homem da Cabeça de Papelão

Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra

Um homem é criticado por ser honesto e resolve trocar sua cabeça por uma de papelão. Essa é a história de Antenor, em O Homem da Cabeça de Papelão, conto de João do Rio, em cartaz no Leblon.

Adaptada por João Batista e interpretada pela Cia. Dramática de Comédia, a história data do início do século XIX, mas parece que foi escrita nos dias de hoje tamanha a atualidade.

Oberdan Junior – cuja voz é inconfundível – está muito bem na pele de Antenor, o homem que só fala a "verdade verdadeira" e, por isso, é apontado como louco pelos moradores da cidade do Sol, onde vive.

Sem vaidades e qualquer plano de carreira, Antenor é forçado pelo tio a ser bacharel, pois assim ele teria tudo nas mãos, bastava bajular um político-chefe para chegar a deputado.

Mas Antenor não queria. Ele era íntegro demais para fazer algo desse tipo. Porém, o homem apaixonou-se por uma filha da lavadeira de sua mãe e, para casar com ela, a moça exigiu que ele mudasse, que fosse igual aos outros.

Ao passar por uma relojoaria, Antenor resolve deixar sua cabeça para consertar e sai com uma de papelão.

Sua nova face mente, passa por cima de todos, trapaceia. E assim Antenor chega a deputado e seu nome é o mais indicado para o Senado. Decide-se casar com uma mulher de boa família, rica e despreza sua mãe, que, mesmo o achando louco, o protegia por sua bondade.

A moral da história nos traz uma reflexão interessante: “Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra”.

Cleiton Rasga, Giselda Mauler, Sonia Praça e João Batista estão à frente da Companhia e convidaram Oberdan Junior, Carol Machado e Nando Cunha para o musical. Completam o elenco ainda os músicos-atores Guilherme Miranda e Gil Windsor, que conduzem as canções de Marcelo Alonso Neves, feitas exclusivamente para o espetáculo.

O Homem da Cabeça de Papelão se destaca pela sátira bem pensada de um dos maiores contistas do Brasil, Paulo Barreto. O jornalista usava inúmeros pseudônimos para escrever suas críticas. O mais conhecido é João do Rio.

Diferente do cinema, o teatro aceita bem um musical e João Batista soube dar o tom certo para o texto fluir da melhor maneira. Aliás, quem conhece o conto, percebe que pouca coisa foi mudada. Batista procurou ser fiel à história.

Serviço

O Homem da Cabeça de Papelão
Onde
: Teatro Café Pequeno
Duração: 60 min
Endereço: Av. Ataulfo de Paiva ,269, LeblonTelefone: (21) 2294-4480
Lugares: 120Horário: Quinta a sábado, 21h; domingo, 20h, até 1° de junho
Ingresso: R$ 25,00

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Gonzaguinha é homenageado pelo filho

Daniel Gonzaga canta músicas do pai em Comportamento Geral


O cantor Daniel Gonzaga, filho e neto de ícones da música brasileira, homenagea seu pai, Luís Gonzaga, em seu mais recente trabalho, Comportamento Geral.

Seu quinto CD é composto por 15 músicas de Gonzaguinha, algumas já bem conhecidas, como "Explode Coração" e "O que é o que é", e a inédita "Namorar". Ele foi gravado de uma maneira diferente, ao vivo, no estúdio, sem cortes e edições computadorizadas.

Dedilhando seu violão, Daniel fala sobre Comportamento Geral, sobre música e seu próximo trabalho.

Culturaetc. – Daniel, fale um pouco sobre Comportamento Geral.

Daniel Gonzaga – Diferente dos meus outros trabalhos, Comportamento Geral tem apenas músicas do meu pai. É um CD muito especial porque traz toda a minha família, em todos os sentidos. Primeiro porque eu estou cantando as músicas do meu pai e depois porque eu gravo com uma equipe que trabalha comigo há algum tempo e essa foi então a fotografia de um momento “Daniel enxergando o pai”.

Culturaetc. – Você tem um CD onde você faz uma homenagem ao seu avô, não é isso?

D.G. – Sim, é o meu terceiro CD. Então agora a minha família está fechada. E de agora em diante a gente pode se ocupar de projetos mais autorais.

Culturaetc. – E por que Comportamento Geral?

D.G. – Porque eu acho que a vida do Gonzaguinha, por si só, já foi um comportamento geral e porque a gente queria passar uma mensagem de cuidado com a comunidade, para ela não acreditar nos políticos e defender os seus próprios direitos, não com revolta, mas com inteligência, parar de trabalhar pelo bem do patrão, mas em benefício próprio, aproveitar os horários de preguiça e não os horários de trabalho, ser um cidadão melhor e parar de reclamar do próximo. Então Comportamento Geral é pra falar disso tudo com mais abertura.

Culturaetc. – Você sempre pensou em ser músico?

D.G. – Sempre, desde que eu me entendo por gente. Eu faço coro infantil desde os seis anos de idade, gravei com meu pai, com o Chico Anysio, Erasmo Carlos, comecei a tocar com doze, gravei o meu disco com 21 e é isso. Pra dizer que não pensei, eu fiz faculdade de jornalismo, estudei até o quinto período, mas com os shows não deu mais. Me sustento com a música desde os 18 e não dá tempo de ser outra coisa.

Culturaetc. – Você é sempre comparado com o seu pai e o seu avô? Como você lidá com isso?

D.G. – Comparações sempre rolam. A gente passa por isso o tempo inteiro, mas acho que o negócio não é saber se é melhor ou pior, mas apresentar uma proposta honesta e eu acho que isso é o que conta. Na verdade essa pressão deixou de acontecer há muito tempo porque eu não sucumbi a ela e eu já estou indo para um sexto disco. Então uso o meu tempo para trabalhar e não pra ficar pensando se estou fazendo certo ou errado. Acho que chegar aqui já é um índice de que estou fazendo as coisas certas. Esse tipo de pressão é pra quem está inseguro, pra quem não sabe seu caminho e eu sei bem o meu.

Culturaetc. – Como foi a escolha do repertório deste novo CD?

D.G. – Foi difícil porque o Gonzaga tem cerca de 400 canções e todas são boas. Então foram seis meses escutando bastante Gonzaguinha pra definir o que a gente queria fazer. Acabou que foi um pouco pelo coração e um pouco pelo que ele queria falar nas letras, pelo social.

Culturaetc. – E tem alguma que você aponte como a melhor composição, a melhor canção?

D.G. – Não dá, é impossível, é muita coisa. Às vezes você gosta de uma em um determinado momento e de outra num momento totalmente diferente. É difícil você apontar uma melhor canção. Tanta coisa fez parte da minha vida, nos shows, no dia-a-dia, ao vê-lo compondo, então não dá pra ter essa preferência.

Culturaetc. – Como foi a experiência de gravar um CD ao vivo, no estúdio, sem cortes e edições?

D.G. – A gente passou por um período de tanta limpeza digital que as pessoas esqueceram que elas são falhas, ficam roucas, têm problemas, o violão desafina. Então a gente quis passar essa atmosfera para o público, de um show controlado, sem público – é muito chato a gravação para quem está escutando – , e a gente queria passar essa noção de um artista cantando mesmo. Quem ouve o disco pode ter essa sensação de ter um show em casa e isso faz ele ficar parecido com o disco, que ficou mais original, com uma cara mais moderna. A gente não mudou nada. Tudo o que foi feito ali é de verdade, sem adicionar nada depois.

Culturaetc. – Como está essa questão de apoio cultural, de gravar um CD?

D.G. – Gravar CD é mole, é simples. Com um computador em casa hoje você grava um CD. Mas depois vem a questão da grana para você divulgar este CD e eu acho que o maior problema está aí, por conta das emissoras de rádio e de televisão. É muita demanda, tem muita gente gravando. A gente vive uma fase muito feliz devido à democracia tecnológica e por isso se torna fácil gravar CD. Eu acho que a gente, enquanto cidadão, precisa procurar outros caminhos, na internet, na televisão, nos jornais, parar de ouvir sempre as mesmas coisas, procurar abrir a cabeça para o novo, que está chegando, para as novas bandas, os novos artistas, os novos compositores. E também não acho que a gente está vivendo uma crise da música, como dizem os jornais. Eu não acredito nessa crise da música porque tem muita gente compondo muito bem. A crise está mais nesse hiato que a gente está vivendo de não saber para onde vai a TV digital, que foi modelo imposto pelo nosso queridíssimo Ministro das Telecomunicações, totalmente guiado por outra emissora, o MP3, a mídia do disco, o que vai acontecer com ela, se é pirataria, se não é... Mas a música brasileira está muitíssimo bem. Então tem muita coisa que entra nessa discussão de como é gravar um CD, pra que serve um CD. O objetivo é fazer o cidadão se conscientizar de que ele é o grande fomentador dessa música que acontece no Estado, no país, parar de comprar disco pirata na rua, não por uma questão de moral e de ordem, até porque eu sou contra, mas por uma questão de que, se você compra CD pirata, você não pode reclamar que existe uma produção, pois você está furando uma produção que acontece. E até mesmo parar de comprar CD pirata para alimentar os artistas que estão fazendo novas coisas.

Culturaetc. – Você acredita que as gravadoras estão perdendo o seu império e por isso são contra o download de músicas?

D.G. – As gravadoras já quebraram. Elas temem perder o controle da música, mas isso é uma coisa impossível de se frear. O objetivo hoje é anexar um outro valor à música e isso vai fazer o compositor trabalhar cada vez mais, pois ele vai poder gravar seu CD em casa e lançar na internet. E estimular também o uso consciente disso. A gente tem é que ser mais cidadão, em todos os sentidos.

Culturaetc. – Como está o processo do seu 6° CD?

D.G. – A gente lança um disco e já começa a trabalhar o próximo. Estou com umas 35 músicas inéditas e agora entra o processo de seleção, concepção do disco, para onde você quer levar, o que você quer dizer, quais são as músicas que você acha que têm que entrar, quais as músicas que, dali, vão para outros compositores etc. Então eu estou nesse trabalho de seleção, vou começar a gravá-las em casa e fazer toda a pré-produção, que é definir qual o arranjo que eu quero, que instrumentos vão entrar. Feito este trabalho, que demora cerca de um ano, a gente entra em estúdio para começar a gravar. as o processo de gravação vai ser muito semelhante a este disco. A gente vai gravar tudo ao vivo também, com uma dinâmica de gravação diferente. Não quero gravar mais nada separado, quero ser mais original.

Para saber mais sobre Daniel Gonzaga, basta entrar no site do cantor: www.danielgonzaga.com.br.



Crítica: Estômago


Culinária, paixão, crime e poder. Esses são os principais ingredientes de Estômago, uma tragicomédia que estreou nesta semana e já aculuma oito prêmios, inclusive o de Melhor Filme do Festival 2007.

Raimundo Nonato sai do Nordeste em busca de uma oportunidade melhor. Na cidade grande, assim que chega, consegue o emprego de cozinheiro, após beber e comer de graça em um boteco.

A partir de então, descobre seus dotes culinários, garante uma boa clientela para o boteco, arruma uma namorada – a prostituta Íria – e ainda é convidado para trabalhar em um restaurante italiano.

Contando assim parece um filme sobre superação, mas está longe disso. Nonato comete um crime e o filme intercala cenas dele na cadeia e na cozinha. Mas o público só sabe qual crime ele cometeu na última cena.

Nonato é João Miguel, um talentoso ator baiano que, por sua ótima atuação, ganhou o prêmio de Melhor Ator do Festival do Rio 2007, também conquistado em 2005 por Cinemas, Aspirinas e Urubus.

Para quem estreou em um longa, Fabiula Nascimento incorporou a prostituta gulosa Íria como ninguém.

Babu Santana, que também está nos cinemas com Maré, Nossa História de Amor, é Bujiú, chefe da cela onde Raimundo está preso, mas que logo cai nas suas graças por seus dotes culinários. Integrante do Nós do Morro, o ator, que estreou em Cidade de Deus, ganhou o Prêmio Especial do Júri do Festival do Rio 2007 por sua atuação nos dois filmes.

A direção de Estômago fica por conta do estreante em longas, Marcos Jorge. E que estréia! O filme conquistou quatro prêmios no festival do Rio 2007: Melhor Filme pelo Público, Melhor Diretor, Melhor Ator e Prêmio Especial do Júri. Pela Europa, recebeu ainda o prêmio Lions Award e foi o segundo colocado, entre 200 longas, na preferência do público, no Festival Internacional de Rotterdam, na Holanda. O filme conquistou também o Festival Internacional de Punta Del Este, no Uruguai, com os prêmios de Melhor Filme e Menção Especial de Melhor Ator e foi apontado como melhor filme latino-americano no Festival Cinematográfico do Uruguai.

Destaque para a direção musical de Giovanni Venosta, que deu um tom especial para as cenas em que Nonato cozinhava. Ele fazia seus pratos como um regente orienta seus músicos em uma ópera.

O filme foi inspirado no conto “Presos pelo Estômago”, do livro Pólvora, Gorgonzola & Alecrim, de Lusa Silvestre, que assina o roteiro. Trata-se de uma obra instigante que veio como uma sátira a esse mundo antropofágico que vivemos, onde homens se devoram a troco de nada e os dotes de Raimundo servem para mostrar um pouco as artimanhas que usamos para chegar ao poder.

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Estômago
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 112 minutos
Direção: Marcos Jorge
Roteiro: Lusa Silvestre, Marcos Jorge, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito, baseado em argumento de Lusa Silvestre e Marcos Jorge
Produção: Cláudia da Natividade, Fabrizio Donvito e Marcos Cohen
Música: Giovanni Venosta
Fotografia: Toca Seabra
Direção de Arte: Jussara Perussolo
Figurino: Marisol Grossi
Edição: Luca Alverdi

Elenco
João Miguel (Raimundo Nonato)
Fabiula Nascimento (Iria)
Babu Santana (Bujiú)
Carlo Briani (Giovanni)
Zeca Cenovicz (Zulmiro)
Paulo Miklos (Etecetera)
Jean-Pierre Noher (Duque)
Marco Zenni (Vagnão)
Marcel Szymanski (Valtão)
Helder Clayton Silva (Seqüestro)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Trilogia Carioca

Alexandre Pessoal, Maninho Lima e Bruno Ceará

Banda começou de forma despretensiosa e hoje lota as casas por onde passa
Três amigos, cada um com sua banda, resolvem juntar seus talentos e formar um grupo, sem se desligar de seus trabalhos. Mas Alexandre Pessoal (ex-integrante da banda Nada Pessoal), Bruno Ceará (ex-integrante da banda Seu Cuca) e Maninho Lima (ex-integrante do grupo Deu Branco) viram que a coisa foi tomando forma e resolveram investir no Trilogia Carioca.

O grupo passeia do samba à MPB, tem um vasto repertório que vai de Marisa Monte a Jorge Ben, Seu Jorge a Fundo de Quintal, além de suas próprias composições.

Em um bate-papo animado, o trio fala sobre sua formação e projetos para seu primeiro CD.

“Cada um tinha um trabalho separado, mas a gente era muito amigo e sempre dava uma canjinha no show do outro. Então a gente resolveu se juntar, mas sem largar seu projeto. Desses encontros surgiu uma cara para o trabalho. Começamos a nos apresentar oficialmente e resolvemos nos assumir como banda. E o Trilogia nasceu do crescimento dessa coisa despretensiosa que a gente fez”, explica Alexandre Pessoal, voz e efeitos.

Os três se orgulham em dizer que nunca se aproveitaram do conhecimento de ninguém para tocar em algum lugar. Alexandre, por exemplo, é filho de Erasmo Carlos, mas faz um trabalho independente e diferente do pai.

“A gente conhece muita gente, mas mesmo assim nunca tivemos um padrinho para tocar na Lapa, por exemplo. Isso nunca foi fator determinante. Tudo que conseguimos foi por mérito nosso. A Lapa é um mercado extremamente fechado e ainda assim tocamos para 8 mil pessoas na Fundição Progresso”, se orgulha Ceará, voz e violões.

E de pensar que, com exceção de Alexandre, a música entrou por acaso na vida deles.

“Nunca pensei em ser músico. A profissão surge na vida de cada um muito cedo, mas a música nunca é a primeira opção, até por ser colocada um pouco à margem da sociedade. Caí na música por diversão. Um grupo de amigos do pré-vestibular tinha banda, tocava samba e aí resolvi tocar e deu no que deu”, conta Maninho, voz, cavaquinho, violão e pandeiro.

Já são três anos de formação. O grupo começou, oficialmente, em abril de 2005 e agora trabalha para lançar seu primeiro CD.

“A gente começou a fazer a pré-produção. Como os três compõem estamos analisando o repertório, o que é bom pra banda. Estamos encontrando uma cara ainda para o CD, que deve sair ainda neste ano”, adianta Alexandre.

Mas enquanto o CD do Trilogia Carioca não sai, o público pode conferir o trabalho do grupo no bar Bom Sujeito, na Barra da Tijuca, onde eles tocam de 15 em 15 dias, e aos domingos na MELT, no Leblon.

Em breve, no site http://www.trilogiacarioca.com.br/ os internautas poderão também baixar suas músicas.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Crítica: Maré, Nossa História de Amor

Cena do Filme. Foto de Bruno Prada
O clássico Romeu e Julieta não podia ter ganhado uma versão melhor. William Shakespeare deve estar aplaudindo até agora ao brilhante musical de Lúcia Murat, Maré, nossa história de amor, inspirado em uma das mais belas e trágicas histórias do dramaturgo inglês.

Com estréia marcada para esta sexta-feira, 4 de abril, Maré é uma prova de que o cinema nacional está mais rico do que nunca. Trata-se de um belo musical, colorido, composto pelos mais talentosos dançarinos de diversas comunidades do Rio de Janeiro, além de diálogos inteligentes e um roteiro bem amarrado.

O filme, assim que começa, nos dá uma vontade de levantar da poltrona e dançar junto com o elenco. A trilha sonora, assinada por Fernando Moura e Marcos Suzano, e as coreografias, assinadas por Graciela Figueroa, casaram tão perfeitamente quanto o figurino de Inês Salgado e a fotografia de Lúcio Kodato.

Lúcia Murat esteve impecável ao mostrar uma favela repleta de jovens sedentos por arte, por fazer arte, pela dança. É claro que há o lado das facções e de toda aquela disputa por pontos de vendas de drogas, mas isso fica como coadjuvante. O protagonista, o fator chave do filme é ela, a dança, o hip hop, o funk.

Falando em protagonista, o “Romeu” da trama é Vinícius D’Black, o Jonathan, dono de uma bela voz e com um gingado de quem está nessa a vida inteira. Sua “Julieta” é Cristina Lago, que foi feita para ser Analídia, uma jovem doce e determinada, movida por seu amor pela dança e por Jonathan.

Os jovens pertencem a diferentes facções criminosas na favela da Maré. Jonathan é irmão de um dos chefes do tráfico, Dudu, muito bem interpretado por Babu Santana, que inclusive ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio 2007. Apesar de viver na criminalidade, Dudu chora, apóia a carreira do irmão e ainda sustenta a escola de dança, liderada pela professora Fernanda, interpretada por Marisa Orth.

Já Analídia é filha do chefe de outra facção, sob o comando de seu primo, Bê (Jefchander Lucas), muito mais impiedoso que Dudu. Da cadeia, o pai da moça é quem alimenta seu bando com armas e munição.

Maré, nossa história de amor mostra uma outra realidade das favelas. Uma realidade quase escondida por uma sociedade que prefere acreditar, talvez por falta de informação, que lá só tem lugar para o tráfico, que não há qualquer tipo de manifestação cultural.

Lúcia Murat acertou em cheio e, sem dúvida, está na sua melhor fase.

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Maré, Nossa História de Amor

Equipe

Direção: Lucia Murat
Direção de Fotografia: Lucio Kodato
Direção de Arte: Gringo Cardia
Roteiro: Lucia Murat e Paulo Lins
Coreografia: Graciela Figueroa
Coreografia adicional: Sonia Destri
Direção Musical: Fernando Moura e Marcos Suzano

Elenco

Cristina Lago: Analídia
Vinícius D'Black: Jonathan
Marisa Orth: Fernanda
Babu Santana: Dudu
Jefchander Lucas: Bê
Anjo Lopes: Anjo
Elisa Lucinda: Maria, mãe de Analídia
Malu Galli: Amiga de Fernanda
Flavio Bauraqui: Paulo

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Boca Livre 30 anos


Um dos vocais mais importantes do país lança seu primeiro DVD
O grupo Boca livre está comemorando 30 anos e, como presente, lançou seu primeiro DVD, “Boca Livre ao Vivo”.

Com participações de Rodrigo Maranhão, Roberta Sá, do grupo MPB 4 e outros, um dos melhores vocais do país relembra os sucessos “Toada”, “Mistério” e “Bicicleta”, além de novas composições.

Em um bate-papo descontraído, David Tygel (violão e vocal) falou sobre o novo trabalho, parcerias e, é claro, sobre os 30 anos de Boca Livre.

David Tygel - É muito legal um grupo conseguir se manter por 30 anos, sem só se repetir. Estamos sempre trabalhando músicas novas, sem saudosismos. É claro que a gente toca músicas que nosso público gosta, mas procuramos diversificar.

Culturaetc. – Durante esses 30 anos vocês tiveram três formações diferentes. Como foi isso?

D.T – O Boca Livre é um estado de espírito. Quem está dentro, está, quem está fora, não está, mas não houve brigas. Na verdade as pessoas estavam dispostas a fazer outros trabalhos. Eu mesmo fiquei 12 anos fora pra fazer trilhas para cinema e até ajudei a arrumar outro integrante. E a gente aproveita para trazer essa vivência de fora para o grupo.

Culturaetc. – E como foi escolhido o repertório do DVD “Boca Livre ao vivo”?

D.T – É uma mistura entre as músicas conhecidas, que nunca tinham sido gravadas em DVD, e também de músicas novas, que foram acrescentadas no repertório, como as do Edu Lobo, que é um grande parceiro nosso.

Culturaetc. – Você sente muita diferença entre o cenário musical de 30 anos atrás e o de agora?

D.T – Naquela época havia muita coisa bacana, como a espontaneidade. As rádios tocavam o que quisessem. Os programadores tinham muita liberdade. Hoje existe uma pressão econômica muito grande em cima daquilo que tem que fazer sucesso. Eu acho que hoje é mais difícil para toda a produção brasileira chegar sequer a tocar em alguma rádio. A programação hoje toca 1% do que se é produzido no país. Os outros 99% não chegam. Essa é a maior diferença hoje.

Culturaetc. – E qual seria a solução para isso?

D.T – A solução seria a democratização dos meios de comunicação. Há projetos, em todos os Estados, que facilitam o encontro dessas novas produções com o público, que está louco para ver coisas novas. Talvez, com isso, apareçam gravadoras menores, e até mesmo mais lojas ou pontos diferentes de vendas de CD, mais shows, etc.

Culturaetc. – Falando em projetos, o Boca Livre, há 30 anos, fez parte do primeiro Projeto Pixinguinha, que difunde música pelo país. Como foi essa experiência?

D.T – Foi muito legal, pois um projeto como esse permite que muita gente conheça novos valores. No nosso caso é bom que as pessoas conheçam o Boca Livre de graça. Por que não? Não sei se a gratuidade é a solução, mas se diminuir, por exemplo, o preço do CD, diminui a produção pirata.

Culturaetc. – Vocês tiveram muitas parcerias ao longo desses anos. Existe alguma que você aponta como a que mais gostou?

D.T – A gente tem importantes parcerias, como o Geraldo Azevedo, que é meu amigo de muitos anos, então cantar com ele é maravilhoso, assim como o Paulinho Moska. Tem muita gente boa por aí.

Culturaetc. – Como você define esses 30 anos de Boca Livre?

D.T – Defino esses 30 anos com o maior prazer. Superamos as diferenças de uma maneira muito legal. Hoje somos amigos, parceiros, e são pessoas que ainda tenho muito pra trocar.

quarta-feira, 26 de março de 2008

A Bossa Nova e suas informalidades

Grupo de amigos se encontra há 5 anos para tocar o que a Bossa oferece de melhor

Enquanto Mauro Senise e Alberto Chimelli falam sobre o início do Bossa Jazz Trio e suas influências, entre um café e outro, Paulo Russo, de fundo, traça a trilha sonora da entrevista em seu contrabaixo.

Descontraídos, a dupla define seu trabalho como um encontro informal.

Nós somos um trio que não tem líder. Estamos juntos há cinco anos, quando começamos a tocar aqui. Primeiro veio o Paulo Russo, que é contrabaixista, e o pianista Dario Galante. Depois o Dario saiu e eu e o Alberto entramos, explica o saxofonista e flautista Mauro Senise.

A única preocupação do Bossa Trio Jazz, para Senise, é a emoção, o prazer de estar entre amigos.

A gente não tem grandes arranjos, mas tem uma harmonia. Cada dia é um desafio. Essa é a nossa hora bacana de criar. Nossa preocupação é com a emoção, é o acorde estar direito, o prazer que isto traz pra gente. A gente procura se divertir, mas com a maior seriedade.

Cada um tem seu trabalho, sua trajetória. O pianista Alberto Chimelli, por exemplo, conta que aprendeu a tocar bem cedo, com sua mãe, que também era pianista. Aos 12 anos já admirava Leny Andrade e Baden Powell.

Na época havia um material muito farto para se tocar. Tive muito contato com a música e fui influenciado por grandes músicos, como Tom Jobim e Marcos Valle. Eram os nomes que mais admirava. O Tenório Júnior era um pianista maravilhoso e me ajudou muito. Eu era estudante e tentava assimilar os acordes e pegar o jeito da Bossa. E aí parti para a música criativa, para o Jazz, que não é um estilo propriamente dito, é uma maneira de tocar. E então houve uma fusão com a Bossa e é a musica que fazemos aqui. São músicos de primeiro nível, como o Mauro e o Paulo, que sempre foram meus ídolos. É muito confortável para mim tocar com músicos desse nível. É tudo muito feito de improviso, mas há uma cooperação mútua, nos entrosamos pelo olhar.

A história de Paulo Russo também não é muito diferente. O contrabaixista, antes de completar a maioridade, entrava escondido no famoso “Beco das Garrafas”, em Copacabana – RJ, considerado, no início dos anos 1960, o “Templo da Bossa Nova” e abrigava o melhor do instrumental.

Eu assistia a grandes nomes da música que depois eu até vim a regravar e tocar junto, como Raul de Souza, Edison Machado e Luiz Eça, que foi quem mais me inspirou, lembra Paulo.

É no mínimo curioso perceber tanta riqueza cultural numa época em que a internet era um sonho distante e hoje, quando tudo parece ser mais fácil, mais acessível, não ter um movimento tão grandioso como a Bossa Nova.

A música brasileira sempre fez muito sucesso no exterior. Grandes nomes da Bossa, por exemplo, como Baden Powell e Hermeto Pascoal são venerados lá fora. Existem, inclusive, lojas especializadas em MPB. Já no Brasil o cenário é outro.

Acho que a mídia é a grande culpada por isso. Ela que decide quem fará sucesso. É claro que a ditadura contribuiu para o sumiço de alguns artistas, como um amigo meu, o Tenório Junior, grande pianista que foi fazer show na Argentina e nunca mais voltou. Mas ela não foi a grande culpada, comenta.

O músico conta como foi seu encontro com os outros dois.

Eu toco com o Mauro há 20 anos, temos uma afinidade muito grande. Aí descobrimos esse espaço na Modern Sound e toda quinta-feira a gente toca aqui, há cinco anos. Agora estamos pensando em gravar um CD do Trio, adianta.

Escutar um grupo dizer que toca no improviso pode soar esquisito. Quem não conhece pode lançar um olhar desconfiado, de início, sobre os três. Mas a verdade é que Mauro Senise, Alberto Chimelli e Paulo Russo não começaram ontem. Muito menos anteontem!

Os três estão, sem sombra de dúvidas, entre os maiores instrumentistas do mundo. Todos são muito bem conceituados no Brasil e no exterior, têm os melhores prêmios da música instrumental, além de parcerias preciosas, como Paulo Moura, Victor Assis Brasil e Vinícius de Moraes.

E sua apresentação impressiona. Os três tocam seus respectivos instrumentos com uma afinidade no mínimo interessante, com uma leveza e segurança incontestáveis.

O repertório é enriquecido por clássicos como Alone Together (Deutz / Schwatz), Stella by Starlight (Washington /Young), On Green Dolphin Street (Kaper / Washington) e My Favorite Things (Hammers), e muitos outros.

Quem quiser conferir de perto o trabalho do Bossa Trio Jazz basta reservar uma quinta-feira, a partir das 17h, para ir à Modern Sound, que fica na Av. Barata Ribeiro, 502, Copacabana.

Difundindo a música pelo Brasil

Mônica salmaso e Seu Luís Paixão, no Projeto Pixinguinha
Projeto Pixinguinha comemora 30 anos levando arte aos quatro cantos do país

A música brasileira precisa ser mais difundida. E foi sob esse propósito que o Projeto Pixinguinha nasceu, há 30 anos. O evento já projetou artistas consagrados, como Ivan Lins, Djavan e Zé Ramalho e, até hoje, leva cultura a lugares de difícil acesso.

Em 1977, o compositor, poeta e produtor Hermínio Bello de Carvalho (63) coordenava o projeto cultural Seis e Meia, do também produtor cultural Albino Pinheiro. O projeto leva este nome porque Albino aproveitava o horário das 18h30min nos teatros para promover shows de MPB a preços populares ou de graça.

Hermínio decidiu então criar o projeto Pixinguinha, onde artistas famosos e desconhecidos são divididos em caravanas, que percorrem os quatro cantos deste país. A primeira aventura teve a presença de João Bosco e Clementina de Jesus, Ivan Lins e Nana Caymmi, Simone e Suely Costa, Paulinho da Viola e Canhoto da Paraíba, Nara Leão, Camerata Carioca e Radamés Gnattali e Edu Lobo e Boca Livre.

O Pixinguinha é um projeto com políticas bem definidas de formação de novas platéias, de apoio à área de produção cultural e também uma forma de fazer o povo conhecer um artista de pouca visibilidade pública ao lado de outro mais conhecido, explica Hermínio ao Cultura Etc.

O cantor Ivan Lins foi o primeiro artista a se apresentar no Projeto Pixinguinha e, após 30 anos, volta aos palcos encerra a edição de aniversário do maior programa de circulação de música do Brasil.

Desde que o Pixinguinha foi criado, as rádios ficaram mais comerciais. Antes, a importância do Projeto era a de levar ao público, a preços populares, artistas que tocavam no rádio. Hoje, ele dá a muitos a oportunidade de ouvir artistas como o André pela primeira vez. Para mim, é uma grande honra encerrar esse ciclo, depois de 30 anos, num projeto que abriu muitas portas para mim, declara Ivan.

Neste ano 128 espetáculos viajaram por 17 cidades brasileiras, em 16 caravanas, a preços populares ou com entrada franca. Mais de 40 mil pessoas assistiram a Zé Renato, João Bosco, Geraldo Azevedo e outros grandes nomes que se apresentaram ao lado de talentos da nova geração, como Arthur Faria e seu Conjunto e PianOrquestra.

Em seu quinto disco, o grupo Arthur de Faria e seu conjunto fez sua carreira pelo Sul do país, passando pela Argentina, Uruguai e São Paulo.

O conjunto é bem eclético. Ele mistura ritmos como polca, valsa, tango, candango, e assim vai. Arthur de Faria e seu conjunto viajou com a Caravana 10, ao lado de Cida Moreira, por Brasília, Rio Branco, Belém, Cuiabá e Rio de Janeiro.

Porto Alegre tem muito dessa coisa misturada, muitas culturas diferentes. A gente é uma região de fronteira, então a música que a gente faz é bem fronteirista e eu gosto disso, explica Arthur ao Cultura Etc. O projeto Pixinguinha é sensacional. Primeiro porque muitos artistas que eu ouço hoje eu conheci neste projeto, como Luis Melodia, o Macalé (Jards), e tem a oportunidade de conhecer outros lugares e perceber como esse Brasil ferve, completa.

Quem quiser saber mais sobre o grupo basta entrar no site www.seuconjunto.com.br.

Quem também impressionou o público neste ano foi o PianOrquestra. Trata-se de um conjunto que usa 10 mãos e um piano preparado. É isso mesmo. São quatro pianistas e um percussionista fazendo do piano uma orquestra de sonoridades.

A gente fez um trabalho de muita pesquisa sonora, inclusive exploramos a parte debaixo do piano, usando as madeiras para as percussões, e a parte de dentro da caixa do piano, usando as técnicas de piano preparadas, explica o pianista e compositor Cláudio Dauelsberg ao Cultura Etc.

O grupo usa ainda borracha, madeira e metal, que reproduzem sons de cavaquinhos, de contra-baixo, de percussões, sininhos e outros.

O PianOrquestra tocou ao lado de João Bosco, na Caravana 7. Eles viajaram por Vitória, Florianópolis, São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro.

O Pixinguinha foi muito bom para o Pianorquestra, pois foi uma troca muito enriquecedora com o João Bosco e seus músicos, essa interação com as músicas dele foi muito boa, comemora Cláudio.

Saiba mais sobre o PianOrquestra no site www.pianorquestra.com.br.

A cantora Mônica Salmaso, dona de umas das vozes mais belas do país, resumiu bem o que seria o Projeto. Ela fez parte da Caravana 14, ao lado de Seu Luiz Paixão, e viajou por Rio Branco, Belém, Cuiabá e Brasília.

O projeto Pixinguinha é o projeto mais importante e o que mais abrange um número de pessoas e um número maior de lugar, pois ele viabiliza a viagem pelo Brasil de nós, artistas, pois o país é grande demais e para nós é complicado viajar para certos lugares se não tivermos apoio. Tem muitas regiões que não conseguimos chegar por ser distante demais, então o projeto Pixinguinha promove, em primeiro lugar, o encontro entre artistas, que se conhecem nesses espetáculos, e depois a possibilidade de esses artistas mostrarem o trabalho deles fora do lugar onde eles vivem, onde mais trabalham.

O Pixinguinha foi interrompido nos anos 90 e retomado pela Funarte em 2004, desde então com o patrocínio da Petrobras.

De acordo com Hermínio, o projeto se desestruturou no Governo Collor, quando o Ministério da Cultura foi eliminado. Mesmo com sua saída, ficou difícil retomar o projeto.

Na comemoração de seus 30 anos, Hermínio Bello de Carvalho foi convidado para ser o curador e sugeriu que os espetáculos fossem filmados para que façam parte da memória da música brasileira.

Abdiquei do direito de escolha dos artistas convidados e propus que, como já se fez na década de 80, gravássemos os espetáculos para colocá-los na grade de programação da Rede Brasil. Sabe-se que sempre lutei pela preservação da memória, e acho que ela não sobrevive sem registro e documentação, explica Hermínio.

Após o show de encerramento, o jornalista Sergio Cabral lançou uma biografia sobre Pixinguinha. Escrita há 30 anos, Pixinguinha – vida e obra, foi reeditada pela Fundação Nacional de Artes. O jornalista Jota Efegê também lançou coletâneas de crônicas, reeditadas pela Funarte.

As reedições da Funarte foram sugeridas por Hermínio Bello de Carvalho para completar as comemorações dos 30 anos do Projeto Pixinguinha. A biografia sobre Pixinguinha venceu o primeiro concurso de monografias promovido pela Funarte e impulsionou a carreira de pesquisador musical de Sérgio Cabral. O livro narra toda sua trajetória de sucesso.

De Jota Efegê, foram reeditadas quatro coletâneas, reunindo 525 crônicas: os dois volumes de Figuras e coisas da música popular brasileira, além de figuras e coisas do carnaval carioca e de Meninos, eu vi.

Saiba mais sobre o Projeto Pixinguinha pelo site http://www.funarte.gov.br/.

Bossa Nova 50 anos

Carlos Lyra e Fernanda Takai
O estilo que mudou o cenário musical do país prova que resiste a todos os tempos.

A Bossa Nova está completando 50 anos neste ano e, para comemorar, grandes nomes da música brasileira se encontraram em um show inesquecível nas areias de Ipanema, no dia 1º de março, no Rio de Janeiro.



Quem esteve presente pôde relembrar músicas marcantes, como Chega de Saudade (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), na voz de Emílio Santiago, Barquinho (Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli), na voz de Fernanda Takai, além de novas composições, como Aonde a Coruja Dorme, de João Donato e Joyce, interpretada pelos próprios.

Não se sabe qual foi o momento exato que surgiu a Bossa Nova, mas sua estréia é contada a partir do ano de 1958, quando Elizeth Cardoso lança o disco Canção do Amor Demais. Na obra, ela interpreta composições de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. No mesmo ano, Chega de Saudade - 78 rpm chega às lojas com o clássico de Tom e Vinicius, que leva o mesmo nome do disco, e Bim-bom, de João Gilberto, com sua inovadora batida de violão.

Muitos são os pais da Bossa Nova. Há algumas versões para quem a inventou, como a que o cantor e compositor Carlos Lyra deu para o Cultura Etc.

Não existem pais da Bossa Nova, nem ela nasceu na casa da Nara Leão nem em lugar nenhum que não fosse na zona Sul do Rio de Janeiro, precisamente em Copacabana. Então seus pais são um monte de gente que foi atingida pela necessidade de fazer uma música nova.


O cantor, instrumentista e arranjador João Donato completa.

Os jovens se reuniram por casualidade ou por coincidência. Nós nos admirávamos mutuamente, como João Gilberto, Tom Jobim, Baden Powell, Carlos Lyra, Bôscoli, Roberto Menescal, Johnny Alf, Nara Leão etc. Copacabana era o centro dos acontecimentos noturnos no Brasil e fervia naquela época. Todos tocavam ao vivo, faziam muitos shows. Cantores internacionais vinham muito se apresentar e Copacabana era a capital do divertimento no Rio de Janeiro. Acabou que muitos lugares trabalhavam com músicas populares, comerciais, para faturar mais. Então preferimos ir a locais menos freqüentados, onde as músicas eram menos populares, como o Hotel Plaza. Lá tocavam Durval Ferreira, João Gilberto, Roberto Carlos, Elza Soares. Nem profissionais éramos ainda. E o movimento da Bossa Nova surgiu assim.

O país vivia seus melhores dias. Não é à toa que os anos cinqüenta são conhecidos como "anos dourados".

Em 1956, o Brasil conhecia seu mais novo presidente, o mineiro Juscelino Kubitschek, que promete desenvolver 50 anos de Brasil em 5. A economia estava a todo vapor, assim como a literatura, o cinema, o teatro, os esportes e assim vai.

Já em 1960, Brasília é inaugurada como a capital do país. Mais promessas de desenvolvimento à vista!

Existe, inclusive, uma história de que desse momento saiu a primeira música de Bossa Nova em homenagem a Juscelino. O cantor e compositor Billy Blanco havia feito um sambinha, chamado Não Vou, Não Vou Pra Brasília, e Chico Feitosa musicou uma letra que falava da vida na nova cidade, chamada Paranoá. E assim a Bossa Nova foi criando forma.

De 60 até 63 tínhamos a promessa de que o Brasil ia ser o país mais importante do mundo. Estávamos caminhando para ser o primeiro mundo. Tudo funcionava. Nós éramos campeões de futebol, de basquete, tínhamos a miss Universo (Ieda Maria Vargas) éramos campeões de boxe, com Eder Jofre, de tênis, com a Maria Ester Bueno, de literatura, de arquitetura, de tudo! E quando estávamos prontos, veio o golpe e acabou o Brasil daquela época e até hoje não se levantou, lamenta Carlos Lyra.

Realmente a ditadura mudou todo o rumo cultural do país. Mas quem pensa que só houve coisas ruins, engana-se.

Devido a todo o momento de tensão que o país vivia, os compositores passaram a escrever sobre política. Se antes os temas eram basicamente amor, após o golpe, intelectuais, não só da música, se uniram para usar seus instrumentos de trabalho, isto é, as palavras, para protestar contra o sistema político vigente.

Como artistas, entendemos que, dado à falta de liberdade de imprensa cada vez maior, teríamos que tentar burlar a censura e dizer umas coisas que o povo precisava ouvir. Então a gente passou a se reunir muito com cineastas, com o pessoal do teatro, todos ligados às artes pra saber o que podia ser feito para acabar com a ditadura, conta, para o Cultura Etc., o cantor e compositor Marcos Valle. Por pior que fosse a ditadura aquilo nos estimulava a querer fazer coisas. A gente queria lutar, a gente queria dizer. Então a gente criava frases que eles não iam entender, com duplo sentido, completa.

Há quem acredite que a Bossa Nova perdeu seu encanto, que é coisa dos mais velhos. A verdade é que o cenário cultural é outro. Hoje existem as grandes gravadoras, que fazem da música um grande comércio. Há, sim, hoje, uma dificuldade maior de gravar, de fazer shows, mas não são motivos para "matar" a Bossa Nova.

Acho que a Bossa Nova cada dia encontra mais seu encanto. É lógico que tem a Bossa tradicional, e que continua tendo o mesmo encanto, como João Gilberto, que sempre mantém a mesma linha. Mas também existe Carlinhos Lyra, Roberto Menescal, e eu, que fazemos coisas mais novas, modernas. A Bossa tem uma sofisticação que permite que misture outras coisas e continua criando coisas novas. Tem uma gente nova muito boa, como Celso Fonseca, Bossacucanova e Fernanda Takai. Então existe um novo interesse na Bossa Nova. A gente mantém o que tinha, os temas são gravados e regravados e ao mesmo tempo estão surgindo músicas e show novos. Agora então, com os 50 anos da Bossa Nova, eu acho que é a nossa grande consagração, comenta um Marcos Valle animado.

O fato é que a Bossa Nova é venerada na Europa, no Japão e nos EUA. Existem lojas especializadas nesse estilo. Aliás, a música brasileira, em geral, é muito valorizada lá fora.

O que acontece é que estamos acostumados a viver de modismos aqui. Há muita coisa boa espalhada pelo país, mas, para fazer sucesso, vai depender, muitas vezes, de grandes gravadoras e empresários. Eles vão decidir o que vai vender ou não.

O Brasil deixou que as grandes gravadoras tomassem conta de uma coisa muito importante, que é a parte de produção cultural. Se o Brasil produzir as coisas direitinho, tomamos conta da música do mundo, declara Hamilton de Godoy, da banda Zimbo Trio.

Mas a Bossa resiste e a prova disto foi esse show realizado no dia 1º de março, em Ipanema. Marcada no dia do aniversário do Rio de Janeiro, a festa promoveu o encontro entre aqueles que acompanharam o seu nascimento e os mais novos, como a vocalista da banda Pato Fu, Fernanda Takai, e a banda Bossacucanova, que mistura a Bossa com música eletrônica.

A atriz e cantora Thalma de Freitas e o produtor Mièle contaram passo a passo os momentos importantes da Bossa Nova, como a peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, passando pelo apartamento de Nara Leão, pelo Beco das Garrafas até os trabalhos mais recentes.

O diretor musical do espetáculo, Roberto Menescal, falou sobre o evento.

Esse é um momento muito especial porque faz a gente pensar um pouco que valeu tudo o que a gente fez. Completamos 50 anos não de uma coisa passada, mas de algo que está vivo até hoje.

O show contou com a presença de Bossacucanova, Carlos Lyra, Emilio Santiago, Fernanda Takai, João Donato, Leila Pinheiro, Leny Andrade, Marcos Valle, Oscar Castro Neves, Roberto Menescal, Wanda Sá e Zimbo Trio.

terça-feira, 25 de março de 2008

Luiza Possi alcança sua maturidade

Existem algumas características essenciais que um músico deve ter para cair nas graças do público. Qualidades como uma boa voz, é claro, presença de palco e bom humor. Coisas que Luiza Possi tem de sobra.

Com 23 anos e quatro CDs lançados, Luiza distribui beleza e simpatia em seu mais novo show, “A vida é mesmo agora”.

Dona de um sorriso sapeca e uma voz suave e encantadoramente afinada, a filha de Zizi Possi deixou para trás aquele estilo pop e comercial, que acaba viciando cantores e bandas em início de carreira, e está
completamente madura, cantando um rico repertório cuidadosamente escolhido por ela.

Em um bate-papo muito descontraído com o Culturaetc., a moça falou um pouco sobre sua trajetória.

Culturaetc: Luiza, conta como você decidiu viver de música.

Luiza Possi: Aos 15 anos eu fui convidada por uma banda para participar de um concurso onde havia umas 500 bandas, no Credicard Hall, em SP. A gente ganhou e o prêmio era abrir um show do Skank. A partir daquele momento eu decidi o que queria fazer.

Culturaetc: Mas você já tinha uma banda ou foi a primeira vez?

Luiza Possi: Tinha, mas ela não passou neste concurso. Os caras dessa outra banda que me viram, gostaram e me convidaram. Eu entrei no palco segura, tranqüila, com 11 mil pessoas na platéia e vi que era aquilo ali que eu queria. Mas depois disso passei por muita dificuldade. As coisas não são tão fáceis só porque eu sou filha da minha mãe, muito pelo contrário.

Culturaetc: Você acha que tem pouco espaço na mídia, até por causa da sua mãe?

LP: Não, pelo contrário. Eu acho que tenho muito espaço na mídia, pois vou muito ao Faustão, vou ao Altas Horas, tenho crítica em todos os lugares... Mas realmente eu não aproveito a minha mãe nem acho isso saudável. Até porque nunca a deixei participar de nada, mas agora vou deixar.

Culturaetc.: E por que você não queria a participação da sua mãe no começo?

LP: Eu precisava me descobrir e saber até onde eu ia sem ela. É claro que ela tem muito a me ensinar, mas eu precisava me conhecer antes.

Culturaetc.: Você começou com um estilo pop, um pouco comercial, e hoje está mais livre, cantando MPB, fazendo algo mais trabalhado. Como foi essa transição?

LP: Foi difícil, como pra qualquer adolescente. Quando eu me lancei eu cantava em bandas, fazia cover. Quando eu fui convidada a gravar um disco eu não sabia o que queria cantar e acabei cantando um monte de música brega (risos). Fazer o quê? Cai na mão de um produtor popular, que queria que eu fizesse coisa popular e ai foi isso.

Culturaetc.: E quando você se viu com um CD na mão?

LP: Quando lancei o disco vi o tamanho da encrenca, da proporção e pensei “não é isso o que eu quero fazer. Quero descobrir a minha musicalidade”. Aí comecei a compor e entender mais o que queria fazer e buscar mais compositores que eu gostava, como Zeca Baleiro e Frejat, que fizeram parte do meu segundo disco.

Culturaetc.: E foi por isso que você demorou quase três anos para lançar seu terceiro CD, o “Escuta”?

LP: Sim. Tive muito tempo para pensar, compor e ver que queria outra coisa e preparar um CD independente de qualquer gravadora e qualquer pessoa que pudesse mandar em mim. Ai comecei a tomar conta da minha carreira artisticamente falando. E hoje o que está aí é o resultado desta prática.

Culturaetc.: Entre os compositores que você canta, tem algum de sua preferência?

LP: Hoje eu posso dizer que tenho um repertório redondo. Tudo o que eu canto é o que eu quero cantar. Todo mundo que está aí é porque tem que estar. O Dudu Falcão, por exemplo, é um compositor que compõe comigo. Estou muito próxima dele ultimamente. Ele fez “Pedra de Areia”, que eu também canto, que é dele e do Lenine, tem Chico Buarque, que eu amo e que eu canto à beça, e Moska, que tem 20 mil músicas dele no meu repertório... Um dia vou fazer um disco “Luiza canta Moska” (risos).

Culturaetc.: E que história é essa de você virar atriz?

LP: Eu fui à festa de estréia da novela do Walter Negrão, “Desejo Proibido” (na qual atua seu marido, o ator Pedro Neschling) e uma produtora comentou que ele fez uma novela onde tinha uma personagem que era cantora de bolero e aí, na época, pensaram em mim, mas acabou que o projeto não foi pra frente. E aí falaram que, se fosse, eu seria a protagonista e eu estou deixando rolar...

Culturaetc.: Como é conciliar sua vida pessoal com o trabalho? Já pensou em cancelar shows devido ao cansaço?

LP: Nada! Estou aí pra trabalhar... Tenho que trabalhar, rodar o Brasil e o mundo inteiro. Agora que as coisas estão acontecendo! Eu vou sair desse eixo Rio – São Paulo, onde as coisas são mais fáceis para acontecer, e vou para o Nordeste, Sul, Centro-Oeste, Japão, America Latina... Não tem essa de cancelar show. Quando tem um eu dou graças a Deus. É uma luta. Você não tem idéia do que é. Quantos anos eu já passei em casa sem fazer um show! Eu aparecia em boate só pra poder cantar... Eu dou muito valor. É muito difícil esse mundo...

Culturaetc.: E o que você faz além da música?

LP: Eu faço balé, malho, estudo piano, cuido das minhas plantas, da minha casa... É muito difícil cuidar de casa. Sempre morei com minha mãe. Então saí há dois anos e meio, quando eu e Pedro nos juntamos e arrumamos uma casa pra gente.

Culturaetc.: Você acabou de lançar o CD e DVD “A vida é mesmo agora”, mas já pensa em outro trabalho?

LP: Sim. Essa coisa de compor é muito louca. Já tem algumas músicas ai e dá vontade de fazer um disco novo, claro. Estou sempre buscando mais.

Os Miquinhos estão de volta!



Oito amigos resolvem se encontrar por acaso e fazer shows por acaso. De repente, eles já estão com um disco nas lojas e com sucesso tocando nas rádios, e nada mais é simplesmente por acaso...

Essa é a história de João Penca e seus Miquinhos Amestrados que, depois de 14 anos parados, resolveram se encontrar e fazer um show pra lá de irreverente no Rio de Janeiro, neste mês de março.

E humor é o que não falta para este grupo, que hoje está reduzido em três. Bob Gallo, Avelar Love e Selvagem Big Abreu parecem os mesmos garotões que emplacaram com Telma, Eu Não Sou Gay e Pop Star. Eles brincam o tempo todo, correm de um lado para o outro, trocam de roupa e não deixam ninguém ficar parado.

Mas é bom que fique claro: tudo pode parecer uma brincadeira despretensiosa, um festival de besteirol, mas João Penca e seus Miquinhos Amestrados deixa muita bandinha de garotões no chão. Eles continuam bem afinados e com um som pra ninguém colocar defeito.

O João Penca se formou em 1972, através da iniciativa de oito amigos: Bob Gallo (voz), Avelar Love (voz), Léo Jaime (voz), Selvagem Big Abreu (guitarra, violão e voz), Cláudio Killer (teclados e voz), Del Rosa (baixo e voz), Guilherme Hullygully (guitarra e violão) e Mimi Erótico (bateria).

Quando o primeiro disco da banda saiu, em 1983, o grupo já não contava com Leo Jaime, que partiu para carreira solo. Mas isso não impediu que “Os Maiores Sucessos de João Penca & Seus Miquinhos Amestrados” fizesse sucesso.

Porém, neste mesmo ano, a banda perderia mais um componente, o tecladista Cláudio Killer, que falecera em um acidente de carro.

Em uma conversa animada, o trio falou sobre essas perdas, seus sucessos, sua volta e seus planos.

E eles estavam tão empolgados que, na primeira pergunta, quando indagados sobre a escolha do nome, eles perguntam “isso é sério ou é brincadeira?”.

Após os risos, Bob Gallo explica.

Quando a gente era mais novo a gente era fã de bandas que sempre tinham o nome de “algum cara e alguma porcaria.”. Um dia, algum louco, que ninguém sabe quem foi, deu esse nome, do nada.

E Avelar Love completa.

A gente achou esse nome tão absurdo que resolveu adotar. E isso foi no verão de 1982.

No ano de 1986, quando lançaram seu segundo trabalho, “OK My Gay”, o João Penca já era um trio.


A galera fazia aquilo de brincadeira. Cada um tinha seu compromisso com escola, pais, etc. Então, quando a coisa começou a ficar séria, quatro pularam fora de uma vez só, exlica Bob.

Nossa pretensão não era fazer sucesso, ganhar dinheiro nem nada, era ganhar mulher mesmo. Então fizemos tudo de forma despretensiosa. Tínhamos nossas metas de carreira – somos engenheiros – e a música foi uma forma de se dar bem com as mulheres, explica o sincero Avelar, que jura não ter tido tanta sorte como imaginava.

E parece que, até hoje, o trio continua com a idéia de se divertir.

A gente continua se divertindo, despretensiosamente, como a gente gosta de fazer, com amigos que se conhecem há 30 anos, explica Bob Gallo.

Deixando um pouco o humor de lado, o João Penca deu uma analisada no cenário cultural e falou um pouco sobre o futuro.

Há um bom tempo que não há um movimento genuíno cultural. Há meio que um vazio. Mas o mercado está mudando muito por causa da internet. As gravadoras não são mais donas do mercado, comenta Avelar.

E as coisas estão mais democráticas. Cada vez mais fica fácil para as pessoas colocarem seus trabalhos na internet. É um momento de mudança. A produção de massa passa a ser uma produção segmentada, completa Bob.

Mas o público está mesmo é ansioso para saber quando sai um DVD da banda.

A gente está sem pretensão, está sendo muito bom não estar com uma coisa determinada, de que tem que fazer DVD. A gente está tocando, melhorando e uma hora vai rolar, adianta Bob.